A GALERIA

QUATRO DÉCADAS

Nos anos sessenta foi inaugurada, em Lisboa, uma Galeria de arte a que o seu fundador, Francisco Pereira Coutinho, deu o nome de S.Mamede.
Nasceu numa época particularmente conturbada, a nível nacional e internacional, bastando recordar que no começo da década se inicia a guerra colonial portuguesa e eclodem os movimentos estudantis nacionais, prenúncio do fim do Regime, quase simultâneos ao Conflito do Vietname, ao Maio de 68 em França, e à invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, no mesmo ano.

 

Na década anterior o Mundo tentou sarar as feridas provocadas pela II Guerra Mundial e as sua sequelas teimavam, em várias partes do Globo, em persistir. As lutas entre os velhos e osnovos impérios estavam na ordem do dia (Indochina, Coreia, Vietname, etc.) - o mundo velho tentava resistir ao mundo novo e por toda a parte se levantavam vozes e movimentos de esperança num mundo melhor e mais justo, onde Liberdade, Igualdade e Fraternidade deixam assim de ser um mito, os Direitos do Homem respeitados e a distribuição da riqueza e dos bens culturais fosse mais equitativa, originando o nascimento de uma nova Ética e de uma nova Moral.

 

No mundo velho e no que parecia ser o mundo novo, totalitarismos espreitavam os cidadãos, liames prendiam intelectuais e artistas, pois as ditaduras não gostam de quem não cumpre cegamente as suas ordens e directivas e o livre pensamento é por elas considerado uma ameaça.
Política ou religiosa, ou ambas, tanto faz, porque a tentação do poder único e absoluto sempre andou de braço dado com o Homem.

 

No domínio das artes plásticas, os anos cinquenta caracterizaram-se em Portugal, pela luta entre facções ideológicas e políticas, que tinham a sua expressão nas artes e na literatura. E o Estado Novo, fortalecido pala posição tomada na II Guerra, tentava afirmar-se internacionalmente, agora por uma política dita do espírito, sempre entravada pela área mais conservadora do Regime.


Em 1953 o SNI escolheu, de entre os cerca de trezentos artistas que se calcula não estivessem afectos ao Salazarismo, um grupo de 35 pintores e escultores que representariam o País no sector das artes plásticas: Bentes, Francis Smith, Amadeu de Sousa Cardoso, Santa Rita, Dórdio Gomes, Sara Afonso, Carlos Botelho, Mário Eloy, Júlio, António Pedro, Augusto Gomes, Estrela Faria, João Hogan, José Júlio, Júlio Resende, Sá Nogueira, Fernando de Azevedo, Fernando Lanhas, Jorge de Oliveira, Vespeira, Júlio Pomar, Fernando Lemos, Querubim Lapa, Lima de Freitas, João Abel Manta e Eduardo Luís; e na escultura, Francisco Franco, Canto da Maia, Barata Feyo, Martins Correia, António Duarte, Vasco Pereira da Conceição, Jorge Vieira, Lagoa Henriques e Fernando Fernandes. Foi um resultado de ouro, perdurável tal o bronze, como se veria mais tarde.

 


Geraram-se naturais querelas entre várias escolas ou correntes estéticas, uns clamavam que era preciso escolher "caminhos mais fecundos que a abstração ou o delírio inconsequente dos surrealistas", retratando as lutas e aspirações do mundo, a pobreza franciscana, e a dor dos fracos e dos vencidos. Outros queriam empurrar "para longe os rodorguinhos, as abóboras e as cebolas..., os retratos caros de mulheres caras e bonitas". Anatemizavam-se os "cultores de um cosmopolitismo artístico supranacional e, portanto, sem raízes na vida, aplaudindo aqueles que procuram mergulhar na vida que os cerca, nos problemas do seu tempo, nos conflitos objectivos e concretos do seu tempo".

 


É evidente que grande parte da alta burguesia, os que tinham dinheiro para adquirir obras de arte estavam, nessa época, com o Regime e isso significa que, ou adquiriam arte antiga (ou nenhuma) ou andavam nas águas dos naturalistas e muito raros se atreviam a conviver com a então chamada arte moderna. Picasso era, nesses anos cinquenta e sessenta, ainda, em Portugal, motivo de troça e poucos se atreviam a exibir em suas casas essas " deformidades".

 


Período dos finais de 50, a 14ª Exposição de Arte Moderna, do SNI, o trabalho da SNBA, da Casa Jalco, das Galerias de Março, Alvarez, Pórtico, "Diário de Notícias" e Casa da Imprensa, a par do que se organizou na Faculdade de Ciências. Em 1947 Mário Cesariny havia apresentado "O Operário", excepcional trabalho a que alguns desdenhosamente chamavam "o aranhiço" ou 2a borboleta", num desesperado apego às normas e semelhanças realistas, Em 1953, Cruzeiro Seixas, que se radicara em Angola, apresenta obras suas em Luanda e a exposiçãogera um tremendo escândalo. Para muitos era modernismo a mais!

 


É imperioso e da mais elementar justiça assinalar o surgimento da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1956, graças aos inteligentes e demodados esforços do Dr. José de Azeredo Perdigão, junto do doador. A essa instituição se deve, nos mais variados domínios, um notável trabalho, sendo de salientar aqui o que respeita às belas-artes, com a fundação do primeiro Museu de Arte Moderna em Portugal e as múltiplas exposições e apoios aos artistas plásticos. O Dr. Azeredo Perdigão foi, paradoxalmente, obrigado a travar uma renhida luta para levar por diante o seu projecto de criação daquele museu, a cuja criação se levantaram as mais ferozes oposições. Com a colecção Gulbenkian, a biblioteca especializada e outros serviços de apoio deu-se um definitivo impulso na afirmação deste sector da cultura portuguesa.

 


São Mamede e que Francisco Pereira Coutinho, nesse começo da década de sessenta, ousou investir capitais próprios numa empresa que, visando a exposição e comercialização de pintura e escultura de vanguarda, parecia condenada ao insucesso, pela não existência de mercado. O maior feito que se lhe deve, nestas últimas quatro décadas, foi o de, pacientemente, ter imposto, ter tornado moda e quase vício a posse de obras dos pintores que haviam deixado para trás os canones do naturalismo.

 


A São Mamede conseguiu tornar-se ponto de encontro da elite do dinheiro e do espírito, antes e depois do 25 de abril, reunida ao redor de representativos artistas plásticos, proporcionando a formação de largas dezenas de colecções privadas de arte moderna e possibilitando aos artistas ganhos que lhes permitiram viver melhor no seu próprio país e, a alguns, afirmarem-se nos mercados estrangeiros. A São Mamede foi muito criticada por patrocinar e incutir entre nós esta noção de mercado mas, hoje, as cotações de "bolsa" para estes valores e os preços atingidos em leilões demonstram que o País não podia ter ficado fora deste conceito e prática internacional. Muitos galgaram fronteiras (não é preciso citar nomes) e muitos outros se esforçam por consegui-lo.


Oções de filmes, conferências, edições de obras literárias ou de carácter plástico, se popularizaram os originais, já de preços altos, através de serigrafias acessíveis às bolsas comuns, manter as portas abertas a estudantes a ao público amante das belas-artes, para assim conviverem com as mais variadas expressões de arte não foi obra de somenos realizada na São Mamede. Não me escuso a dizê-lo, neste depoimento, porque segui a par e passo este trabalho e sei quanto ele foi árduo.

 


Mas não vale, talvez, a pena enfatizar este exemplo português, se nos lembrarmos que, por exemplo em França, a família de François Miterrand criou um verdadeiro império de Galerias de Arte, que prevaleceram para além da morte do Presidente da República Francesa, continuando na posse da família.

 


No nosso país, deve dizer-se em abono da verdade, outros "marchands" seguiram este trilho. Francisco Pereiro Coutinho distinguiu-se pelo requinte de ter escolhido para sua galeria um recinto de velhas salas pombalinas, dotando-a com o mais moderno equipamento e pessoal e afirmando um apurado gosto no grafismo das edições de livros e catálogos, pela criação sempre certa de molduras capazes de realçar o carácter pictórico de cada obra e pela sua acertada exposição e iluminação, sempre amparado nos artífices das melhores oficinas, assim criando a inconfundível marca de um artista, ele próprio mestre no seu ofício.

 


Chegou, no entanto, a hora do seu afastamento por ele próprio decidido, entregando a seu filho, também Francisco, e a dois amigos, o encargo de prosseguir a sua obra, numa feliz sequência de duas gerações.



Luis d'Oliveira Nunes, Fevereiro de 2002

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