Série Os Outros

Armanda Passos

Série Os Outros

9 May - 18 June 2019 | Lisboa - Politécnica

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Armanda Passos

09.05.2019 - 18.06-2019

O espelho dos outros

São uma multidão. Depois de ver pela primeira vez, seguidas, as figuras que constituem este conjunto, a memória mistura-as. A qual pertence o chapéu que recordo? Não sei dizer, foram-me apresentadas demasiado depressa. Preciso de regressar a cada uma delas, examiná-la com tempo e detalhe. Preciso de compará-las entre si.

Ao fazê-lo, dou-me conta de que propõem um código. São constituídas por um número circunscrito de elementos. As diversas combinações sugerem diversidade, mas a repetição de elementos afirma a coerência interna de um mundo, uma lógica a decifrar. Talvez fosse possível desencaixar os braços de uma e colocá-los noutra; talvez pudesse experimentar várias pernas numa destas personagens. Essas mudanças implicariam alterações de identidade, mas tenho a impressão de que não faltaria capacidade de encaixe. Os próprios rostos parecem ter sido assentes ali, são como máscaras. Assim, até os rostos poderiam ser intercambiados. Nesse caso, claramente, seriam outros. Se agora são os outros, conforme indicado pelo título deste conjunto de obras; passariam a ser os outros outros.

Em qualquer dessas circunstâncias, reconheço um código, tento interpretá-lo. Tratam-se de imagens antropomórficas, o que está a ser dito refere-se ao ser humano. Talvez a subjetividade do humano seja comparável à das cores. Talvez também a sua objetividade seja dessa natureza. O que posso entender destes vermelhos? As cores são caracteres como as letras, edificam uma linguagem. E o dourado? A que ouro se refere?

As roupas, estilizadas, são uma convenção social, parecem dar eco de uma misteriosa hierarquia. Como se tivessem funções diferentes, como se ocupassem postos de importância variável. Tal sofisticação organizativa, deixa antever a complexidade do mundo de que chegam. Ao mesmo tempo, por outro lado, para lá dos rostos/máscaras, as áreas de pele que deixam a descoberto são limitadas: os braços, as mãos, os pés, o pescoço, os ombros, o colo do peito às vezes. Fixo os seus olhos amplos à procura de respostas.

São personagens andrógenas, femininas e masculinas, grossas. Com a mesma ambiguidade, as suas posturas definem-nas. Em certas ocasiões, seguram pequenos objetos entre os dedos, o que será? São objetos minuciosos, pequenos, com alguma utilidade no seu mundo. A forma das mãos é extraordinária, também um sistema de sinais?

E os animais que as acompanham: poderoso elemento destas obras. São sobretudo aves, algumas cobras, alguns aparentes mamíferos. A relação que existe entre estes animais e as figuras centrais é marcante para estas, faz toda a diferença no modo como as entendemos. Especulo: e se os animais são a materialização de algo invisível? Considero alguns e sou capaz de imaginá-los como metáforas: o medo, a incapacidade, os equívocos, o passado, etc. Os animais são algo que existe, não podemos fingir que não os vemos. Além disso, temos de aceitar que flutuem de asas fechadas, mesmo que a sua constituição, sólida e compacta, pareça não lhes permitir voar.

Ocupam um espaço branco, sem tempo, para lá dessas condicionantes. São uma alegoria gráfica do humano, do mundo. E se todas estas figuras se referirem a uma única personagem, um único ser em momentos diversos, visto de múltiplas perspetivas, a ser parte de uma única história? E se for eu, o meu reflexo, o reflexo de cada um de nós? Escreveu Clarice Lispector: "Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu."

José Luís Peixoto

Artworks

Bio

Armanda Passos
Armanda Passos

Armanda Passos (1944-2021) was a Portuguese painter born in Peso da Régua, in the Douro region of northern Portugal. She lived and worked in Porto throughout her life.

She graduated in Fine Arts from the School of Fine Arts of Porto (now the Faculty of Fine Arts of the University of Porto), achieving the highest distinction in Painting under the guidance of Júlio Resende. While still a student, she was invited by artist Ângelo de Sousa to work as his assistant. Her first solo exhibition took place in 1976 at the Museum of Aveiro, marking the beginning of a career that would span more than four decades.

Passos exhibited extensively in Portugal and abroad, with notable solo exhibitions including Paintings and Drawings (London, 1989), Ibériques at Galerie du Cygne, Geneva (1993), Reservas at Casa Andresen, Porto, and Obra Gráfica at the University of Porto (2011), presented as part of the University's centenary celebrations. In 2019, the University of Porto hosted Armanda Passos: 75 Years, 75 Writings, a major exhibition marking her seventy-fifth birthday.

She represented Portugal in numerous international exhibitions, including Portuguese Contemporary Artists at the World Trade Center, New York (1985), the 5th Biennial of European Graphic Art, Heidelberg (1988), Intergrafia 91, Katowice, Poland (1992), and exhibitions at the Centre de la Gravure et de l’Image Imprimée, La Louvière, Belgium (1992).

Independent from artistic movements and trends, Passos followed a singular artistic path throughout her career. As writer Lídia Jorge observed in 2022, she “had no model, belonged to no movement, pursued no strategy, and had no purpose other than surrendering herself to the world that inhabited her.”

Her work inspired texts by some of the most important writers, poets and art historians of the Portuguese-speaking world, including José Saramago, Vasco Graça Moura, Urbano Tavares Rodrigues, Eduardo Prado Coelho, António Alçada Baptista, David Mourão-Ferreira, Mário Cláudio, Armando Silva Carvalho, Mia Couto, Raquel Henriques da Silva, Luís de Moura Sobral and José-Augusto França.

Her works are held in major public and private collections, including the Museu Nacional de Arte Contemporânea, the Fundação Calouste Gulbenkian, the Fundação Champalimaud, the Fundação Oriente, the Contemporary Art Collection of the Portuguese State, the Millennium bcp Collection, the University of Porto, the Museu de Serralves, the Museu do Douro, the Portuguese Parliament and the Presidency of the Republic.

In recognition of her contribution to Portuguese culture, Armanda Passos received the Ministry of Culture Prize in 1984 and was awarded the Order of Merit by the President of the Portuguese Republic in 2012. Posthumously, she was honoured as Grand Officer of the Military Order of Saint James of the Sword in 2022.

In 2005, she conceived and built Casa Armanda Passos, designed by architect Álvaro Siza, to house and preserve the collection she assembled throughout her lifetime. Today, Armanda Passos is recognised as one of the most distinctive independent figures in contemporary Portuguese art, leaving behind a body of work that continues to be widely exhibited, studied and collected.