Carlos Botelho

Carlos Botelho

Um regresso à São Mamede

Carlos Botelho: um regresso à São Mamede

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25 October 2026

Em junho de 1972, a Galeria São Mamede tinha apenas quatro anos quando apresentou uma exposição de óleos de Carlos Botelho. Dois dos quadros que ali estiveram regressam agora às nossas mãos, cinquenta e quatro anos depois. Dá vontade de abrir o catálogo, comparar imagens e percorrer os recortes de imprensa, com a possibilidade feliz de levantar os olhos do papel e encontrar as pinturas à nossa frente.

Numa delas, seguimos a curva de uma rua entre fachadas rosadas, varandas verdes e árvores quase despidas. Uma escada encostada ao telhado prende-nos a atenção, entre tantos pequenos pormenores que apetece descobrir. A outra pintura abre a vista sobre o casario até à faixa clara do Tejo, com os ramos escuros das árvores a desenharem-se em primeiro plano. As cores suaves aproximam as duas paisagens, embora cada uma nos dê uma maneira diferente de entrar na cidade.

Fernando Namora escreveu: “Carlos Botelho é o pintor de Lisboa. Não o único, bem entendido, embora seja porventura o mais fascinado, e é por isso também que existem muitas Lisboas. Esta, a do Carlos Botelho, quase sempre plácida e luminosa, quase sempre castiça e extasiada, um presépio róseo em que o objecto de adoração é o rio – um rio-veleiro, um rio-viagem, um rio-pasmo –, esta Lisboa recolhida em vivências segredadas, ora provinciana e domingueira, ora contemplativa e expectante, quase uma cenografia de serenidades sob o receio de que por ela entre um tufão de vertigens, ora, ainda, prestes a um clamor que nunca será rugido nem estridência, esta Lisboa de Carlos Botelho, seu vagabundo e seu amante, Lisboa enigmática, mais atmosfera que lugar, é para o pintor, cuido eu, uma espécie de memória de infância, de tempo fluindo dentro de um tempo que não quer morrer, é talvez um pacto afectivo que buscou a sua expressão na cor. É, enfim, uma moldura lírica para um modo de estar na vida, que nenhuma outra experiência ou sedução conseguiu disputar.”

Diante destas obras, percebe-se essa intimidade. Mesmo sem figuras nas ruas, há uma vida que se adivinha por detrás das janelas, nas varandas, na proximidade entre os prédios. Quase conseguimos ouvir os vizinhos a dar os bons dias, um cão a ladrar impaciente para ir à rua, ou o som expressivo de um elétrico ao fazer uma paragem.

Estas vivências constituem a identidade de Lisboa, da qual a São Mamede faz parte desde 1968. Há todo um arquivo de catálogos e recortes de imprensa que guardam décadas desta relação, permitindo revisitar exposições e descobrir como foram recebidas no seu tempo. Publicações que acompanharam uma mostra, como o catálogo de junho de 1972, são hoje documentos preciosos para conhecer a história cultural da cidade. O regresso a casa destes quadros acrescenta-lhe um novo episódio e aproxima duas épocas de uma galeria que soube ficar, guardando a memória da cidade e o orgulho de lhe pertencer.

Explorar obras:

Vista de Lisboa com o Rio Tejo, 1970

Vista de Lisboa, 1970

Carlos Botelho: um regresso à São Mamede
Carlos Botelho: um regresso à São Mamede
Carlos Botelho: um regresso à São Mamede
Carlos Botelho: um regresso à São Mamede
Carlos Botelho: um regresso à São Mamede
Carlos Botelho: um regresso à São Mamede
Carlos Botelho: um regresso à São Mamede